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A fera fera

Para Luciana Caravieri
 

Fera escondida os olhos, no peito
na mão que afaga, fere, apedreja
no pé que caminha, come a poeira
no som da viola, no canto, no beijo
no braço que abraça, na voz que corteja.

Fera incontida, inserida, sanguínea
que habita, desliza a boca, o dente
fera impossível, inclemente, impassível
que come, acorda o sonho, o visível
ronda com raiva o sono, o equilíbrio
mata, arrefece o amor e o cio.

Fera que ruge, dá arrepios
vive na noite, na tarde, no dia
muda de cor, de forma, de vista
anda nos becos, nos sons, nas revistas.

Fera contida no tempo, no espaço
na carne, no sangue, no grito, no aço
fera que arranha o coito, o feto
que lambe, lanha o fechado, o aberto.

Fera aflita, sem língua, sem pátria
que fere, arrebenta, alicia, destrata
o branco, o preto, o amarelo, o mulato.

Fera que anda nas furnas, nos matos
na ave que voa, no peixe que nada
no frio da chuva, no sol que maltrata
nas tábuas de Deus, no livro dos ratos.

Fera insensível, que avança, ataca
o homem que explora, o que luta, trabalha
fera que prende, tortura, amordaça
fera que rouba da vida o mormaço.

Fera que rompe. tritura, estilhaça
o papel, o poema, a luz do teatro
fera que agita a rua, o plenário
que anula, violenta o pio do canário.

Fera de pedra, de ferro, de massa
de fogo, neve, vidro, fumaça
que agride, consome o homem, a praça
e serve de arma nas ruas, nas casas.

Fera atrevida sem classe, sem zelo
que avilta, consome o pão, o padeiro
e rouba, condena o rei, o guerreiro.

Fera que anda nua, em pelos
que corre, circula, nos caules, nas veias
e rói como traça o sono, a centelha
de todos aqueles que são seus herdeiros.

Fera que é dura, é negra, é vermelha
é fome, é peste, é sol, é estrela
que amassa, com força, a alma, os pentelhos
as mãos, as palavras, o canto, os cabelos
que explode nas plantas, nos bichos, nos dedos
afoga no escuro os livres, os presos
que às vezes, por honra, é muda, segredo
crime, silêncio do sóbrio e do bêbado
e que aqui por a termos mordendo no peito
a chamaremos pra sempre comumente… MEDO!!!

TõeRoberto

Liberdade anunciada

A 140 km/h, Desprafonilda Arabelle, mesmo estando puta da vida, é difícil pular de um carro.

Mas como você é doida, e tudo é possível, vou aumentar para 160 km/h.

Pular tudo bem, mas pegar no volante não!

Quem acha a vida um saco é você!

Eu adoro a minha vida!

Larga do volante e pula logo!

Que eu vou tomar uma cerveja com Desdeliza Jovelina no Boteco do Xinxim,  e ergueremos um brinde a você e à minha liberdade anunciada

TõeRoberto

E era pra não rir?

Ano 1978, Belo Horizonte, 09:30 da manhã, consultório Dr. Jades – psicólogo

Personagens: Eu e Dr. Jades, o psicólogo.

A história:

Estava fazendo exames médicos para admissão em emprego.

Último exame: psicólogo.

Sentado – 09:30 da manhã – na recepção do consultório do psicólogo.

Secretária: Sr.TõeRoberto pode entrar.

Entrei:

Bom dia!

Bom dia! Sr. TõeRoberto?

Sim.

Hum!… Vamos ver! Fumante?

Sim.

Bebida?

Cerveja.

Diabetes?

Não.

Hepatite?

Sim.

Pai e mãe vivos?

A mãe.

Pai morreu do quê?

Congestão Vascocapilar.

Hum!!!…

Eu – vermelho, corrigindo: Congestão Cardiovascular.

O filho-da-mãe riu: eu vi pelos seus olhos.

E pensou também:

“Congestão Vascocapilar? Que diabo é isto? O pai era vascaíno, o Vasco perdeu para o Flamengo, e ele, desesperado, arrancou os cabelos e morreu? Ih! Ih!, Ih!”.

Aconteceu, e eu sei que o tal de Dr. Jades, se vivo, ainda hoje conta a história… e ri!

E era pra não rir?

TõeRoberto

Uma mulher e seu cachorro
diante do mar
falou-me dos homens que sofrem
e sua boca espumava
e seus olhos molhavam
como se o mar tivesse invadido
a cabeça daquela mulher e seu cachorro
e agora derramasse gota por gota
peixe por peixe
coral por coral
de dentro da cabeça
daquela mulher e seu cachorro.

Depois aquela mulher saiu com seu cachorro
e eu fiquei olhando
aquela mulher e seu cachorro
e seus rastros na areia.

Aquela mulher e seu cachorro
pareceu-me bem
pelos rastros que deixava na areia
aquela mulher e seu cachorro.

Aquela mulher e seu cachorro
parava a cada homem
a cada mulher
a cada criança
a cada onda
e falava dos homens que sofrem
aquela mulher e seu cachorro.

De espaço em espaço
longe dos seus rastros
aquela mulher jogava uma migalha
de pão
carne
ou qualquer coisa
para o seu cachorro.

O seu cachorro corria
comia
voltava
e lambia os pés daquela mulher
o seu cachorro.

Depois aquela mulher e seu cachorro
continuava pela praia
como se a coisa mais importante do mundo
diante do mar
fosse falar dos homens que sofrem
correr
comer
lamber pés
e fazer rastros retos e circulares
na areia negra de Marambaia
aquela mulher e seu cachorro.

TõeRoberto

Eternos orgasmos

Não pense, Adeneuza Floripes, que eu me esqueci do nosso 1º roça-roça!

A nossa 1ª melada de cueca/calcinha!

O nosso 1º e maravilhoso 69!

Aquela 1ª trepada tipo Sharon Stone e Michael Douglas em Instinto Selvagem!

Cacete, você se lembra de como a gente subia pelas paredes como se fôssemos lagartixas?

E de como a gente via estrelas, luares, cascatas, campos de lantejoulas, pássaros cantando… de como a gente gritava, berrava, urrava, ria e se acabava naqueles orgasmos de 03 dias, 09 horas, 43 minutos e 21 segundos?

Você se lembra?

TõeRoberto

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